Um mergulho na profundidade das mudanças

Um mergulho na profundidade das mudanças

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Nosso artgo ns Revista Abigraf de Janeiro/Fevereiro/14
Na sequencia dos artigos do ano passado

Olha, a impressão comercial não vai acabar. Agora, pelo menos, não. Não há um horizonte de tempo definido por mais que imaginemos as transformações naturais advindas do mundo digital. Como no caso dos jornais. Fica, por um lado, difícil mesmo imaginar que com o avanço do digital e a acessibilidade das noticias por parte das pessoas que o transporte diário de toneladas de papel para bancas e residências permanecerá da mesma forma em anos vindouros. Não faz muito sentido. Mas leva ainda um tempo para esse loop, essa volta ser completa. Da mesma forma revistas e outros materiais gráficos. Mesmo porque nem tudo é substituível. A impressão permanecerá onde é relevante em relação aos outros meios. Pela credibilidade que transmite e pelo tempo de atenção que dedicamos ao material impresso. Raridade no mundo de hoje: atenção.

Da mesma forma os modelos de negócio ao redor do impresso permanecerão até o ponto em que ainda forem viáveis. Ou fecham. O que já acontece a cada dia, em diferentes circunstâncias. Os que mantém rentabilidade e faturamento ficam. Óbvio. Mesmo o que não trazem mudanças acentuadas de modelos de negócio.

A questão aqui é outra. Alias a mesma questão que se coloca a todos os meios de comunicação e atividades correlatas: televisão aberta, rádios, o negócio da agência de propaganda, etc. Todos estão passando pelo mesmo turbilhão das novas comunicações. Muitos ainda faturam muito com os atuais modelos. Veja a TV Globo, veja as grandes agências de propaganda. Mas..... algo vem mudando e poucos são insensíveis quanto a isso. A TV aberta já não tem a audiência de antes, pulverizada nos canais a cabo, na Internet e nas outras ocupações de tempo hoje disponibilizadas para a audiência. As agências ainda dependem do BV, mas a pressão por remuneração por resultados é cada vez maior e muitas coisas, como material promocional impresso, são hoje compradas pelo cliente e não mais pelas agências.

Agora, que fique claro. Gradualmente e, as vezes, até de supetão, as coisas mudam. E o que era um negócio vira um nada. Sem horizonte, nem perspectivas. O que estava minando por baixo faz ruir o que se mantinha por cima.

Muito bem, não temos as respostas certas sobre as mudanças e o que virá depois, mas temos indícios e, se queremos preservar o negócio temos que apostar em possibilidades. Exemplo? Voltemos aos jornais. Muitos estão buscando modelos com base em aplicações multimídia. Um dos que mais testam alternativas é o New York Times que disponibilizou todo um andar em sua sede para diferentes empresas startup voltadas à mídia. Semanalmente promovem reuniões entre essas pessoas e o corpo do jornal para apresentação e discussão de ideias. Bom para os dois lados, pois nem só de sonhos os novos modelos de negocio sobrevivem. Mesclar vivência é tão importante quanto sonhar. Interagem, avaliam e experimentam. Se integram e apresentam alternativas. É hoje o jornal com maior intensidade de acessos e com maior número de experimentos que estão aumentando sua audiência total, sem deixar de imprimir suas edições, pois ainda é válido.

No negócio gráfica a história é a mesma. A venda de impressão persiste e ainda mantém a maioria das empresas, mas sabemos que as coisas de alguma forma estão mudando e em algum momento irão ser afetadas mais fortemente, se já não foram afetadas. Se estamos mantendo faturamento não nos preocupamos tanto e tocamos a vida assim. Mudar para que, afinal? “Há 10 anos me falam que a gráfica vai acabar e ainda estamos aí”, me disse um gráfico outro dia. Tudo bem, tudo certo. Certo? Certo fazem os que, primeiro, não estão acomodados. Estão incomodados. Independente de ainda estarem se saindo bem hoje, estão buscando alternativas, experimentando novas possibilidades, incorporando meios digitais na sua oferta, buscando entender melhor o que o cliente precisa, trabalhando junto com ele, automatizando o que se repete, controlando variáveis e se digitalizando com softwares adequados. A maioria desses incomodados são de empresas mais novas, sem muitas amarras do sempre-fizemos-assim-e-vamos continuar-fazendo, do onde começa e termina o setor. Cada um na sua, como sempre foi. Ao contrário, se ajustando a um mundo sem fronteiras setoriais, interagindo mercados, criando outros..

Há ainda dois caminhos nessa história. O gráfico, de forma geral, tem tanta improdutividade que os que fazem os fundamentos direitinho já se saem bem, sem criar nada de muito novo. Só fazendo as coisas direito. Chamo de fundamentos o cálculo correto de custos e preços, o entendimento dos requisitos do cliente, a execução adequada do trabalho, a entrega no prazo dentro da qualidade mutuamente acertada, uma planta razoavelmente organizada, sem cabeçadas, controlada. Dando respostas ao cliente sem enrolações desnecessárias e fazendo o que tem de fazer. Imprimir o que se pediu, no prazo e nas condições estabelecidas. Ponto.

Veja só, só isso já é um diferencial, acredita? Se fazendo isso tenho trabalho, por que inventar algo novo? Por duas razões. Primeiro porque a pressão de preços vai continuar existindo e em algum ponto um salto produtivo, inovador, terá que ser dado – ou não teremos custos para suportar os preços;  e isso exige investimentos permanentes. Segundo porque mesmo assim o trabalho poderá começar a minguar e aí teremos que encontrar alternativas de sobrevivência que não só a boa execução do trabalho resolve.

Aqui entra o segundo caminho dos dois que falei antes. Mesmo fazendo tudo direito temos que nos incomodar e perceber os redemoinhos que estão se formando abaixo da linha d’agua, nas profundidades do mercado, nos novos desejos e necessidades das pessoas e empresas. Quer entender melhor? Não é a Globo que manda em tudo? Então por que ela também foi pega na contramão pelas manifestações de junho de 2013? De onde vieram? Da mídia de massa? Não. Pela interatividade e reação natural das pessoas.

Nesse ponto – o segundo caminho - entram os princípios com os quais temos nos debatido, relatados em artigos anteriores e em diversas palestras e exposições. Entra a busca do nosso negócio estratégico. Ainda que sem sair, a principio, do nosso negócio principal, mas que nos ajuda a ampliar o negocio e nos manter flutuando e ganhando mais clientes e mercados. 

Para facilitar temos usados (e roubado) de nosso amigo Eduardo Buck, da Canon, a analogia que ele faz com as novas padarias, especialmente as paulistanas.  Que se transformaram ao longo do tempo de lugar onde se vendiam pães e algumas outras coisas para verdadeiros centros gastronômicos e de conveniência. Atendendo seus clientes que comem cada vez mais fora de casa, com alternativas e diversidade de pães, doces, salgados, bebidas e tudo o mais. Com arquitetura atrativa, ambientes cativantes e estimuladores do olfato e do visual (ou não comemos com a vista também?)

Pois bem, de padaria para centro gastronômico e de conveniências. E, analogamente, qual seria a transição da gráfica? De reprodutor de produtos gráficos para o que? Muitas possibilidades: para gestor de conteúdo dos clientes – como faz a Courier ( www.courier.com ) - que acaba de comprar parte da Digital Page; para gestor de projetos de marketing e de comunicação dirigida como fazem a Direct one (www.directone.com.br) e a Arizona (http://arizonacrossmedia.com.br ) ; para gestores de projetos de embalagem e de logística como faz a Antilhas (www.antilhas.com.br) ; para facilitador de criação de bens pessoais e de imagens como faz a Digipix (www.digipix.com.br); ou como facilitador de processos corporativos como faz a Meta Solution ( www.metaslt.com.br )

Então é assim. Podemos nos acomodar e ficar fazendo a coisas direitinho, como sempre fizemos – o que já é uma vantagem no curto prazo – boiando na superfície, ou podemos começar a nos mover nas novas correntes e ampliar o conceito do nosso negócio para fazer coisas que o cliente já não quer mais fazer ou que nem sequer sabe que podemos fazer por ele. O que não deixa de ser uma agradável surpresa. Para o cliente, é claro.

 O melhor mesmo é juntar as duas coisas. Buscar novos caminhos fazendo as coisas direitinho, com produtividade. É pois um momento de abraçar as mudanças pois elas já nos estão afetando e nos afetarão ainda mais no futuro.

No começo do ano passado, em artigo nesta revista Abigraf sobre os focos para 2013,  coloquei quatro pontos que, entendo, continuam válidos para este ano. A saber:

1- Novos mercados, novos produtos, novos serviços. Ousadia.

2- Forma de venda. Forma de abordar. Forma de descobrir. Soluções.

3- Novas tecnologias. Novas Mídias. Novo mundo

4- Eficiência operacional. Não é estratégia, é base. É essencial

Os três primeiros se referem ao processo de mudança, a busca de alternativas válidas para o negócio. A última dá ênfase na produtividade como base para qualquer caminho que se trilhe.

Ousar é buscar o novo. Que pode ser através de uma startup, por que não? Menos custo, menos risco, onde errar também é aprender.

Mudar o enfoque e entender mais e mais o cliente, os seres humanos que compõem o cliente, suas angustias e necessidades. Mais do que cumprir requisitos. Resolver questões. Apresentar soluções.

As novas tecnologias auxiliam as mudanças. Possibilitam avanços, constroem pontes. Permitem a interação de mídias com a mídia impressão, por exemplo. Facilitam o acesso ao e do cliente. Constroem negócios para ele e incrementam valor. Como uma boa aplicação de B2B (negócio a negócio) em web-to-print.

Produtividade, eficiência, eficácia. O que mais falta ao Brasil hoje, quanto mais na área gráfica.

Pois bem. Se o mar gráfico parece ainda para muitos como o mar morto onde tudo fica igual e flutuando, tente mergulhar um pouco para perceber as novas correntes e as novas marés. Talvez então você possa se preparar para quando até a lua já não seja a mesma e o fluxo marítimo tenha um novo sentido. E um novo negócio.

Bom mergulho em 2014!

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Hamilton T. Costa

Website.: www.anconsulting.com.br

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