A transição tecnológica em uma indústria em transformação

A transição tecnológica em uma indústria em transformação

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nosso artigo na revista Abigraf com análie sobre a drupa e repercussões no setor

Historicamente as edições da Drupa sempre foram marcadas por temas que as caracterizaram ao longo do tempo mostrando, de alguma maneira, a tecnologia mais representativa daquele momento. Assim tivemos  a feira da fotocomposição em 1982, a feira do JDF em 2004, a do Inkjet em 2008, só para citar alguns exemplos. Mas não pensem vocês que não há um esforço e uma verdadeira guerra mercadológica e de  comunicação para que um tema prevaleça. O que pode significar muito em termos comerciais. Se os que forem visitar referendam e compartilham da visão ou do tema anunciado, ele prevalece e se caracteriza.

Pois mesmo nesse item essa última Drupa foi diferente. Houve até esforços tentativos de dizer que seria a Drupa do Inkjet levado as alturas e a decretação do fim das offsets. Ou mesmo a Drupa do workflow, dos programas e dos sistemas operacionais. A da interação de mídias ou mesmo a Drupa de definição de modelos de negócio. Nada disso, até um mês depois de seu término, prevaleceu. Há ainda uma discussão não concluída sobre qual o tema dominante e para mim há uma razão principal e várias acessórias que explicam isso. A razão principal foi o fator surpresa e o verdadeiro show de marketing do senhor Benny Landa e seu revolucionário processo de impressão Nanográfico e sua tinta nanoink pois deles não se tinha noticia – nem suas patentes haviam sido registradas – até praticamente um mês antes da feira. Por outro lado dizer que foi uma Drupa da Nanografia – ainda que seja uma realidade como impacto - é muito arriscado, pois ninguém pode assegurar, exceto o sr. Landa, de que isso vai efetivamente funcionar. Mas que ele roubou a cena, não há  a menor dúvida a respeito. Incluindo o anuncio de suas parcerias com a Komori, Heidelberg e manroland.

As razões acessórias foram as evoluções em vários sentidos das tecnologias existentes e a mescla entre elas levando a novas possíveis formulações de processos, custos, novas criações e a viabilização de novas páginas impressas, além das habituais.  Muitas das páginas habituais estão sendo e serão substituídas pelo eletrônico ou serão transferidas de uma produção massiva em rotativas e offset em folhas para processos digitais sob demanda e específicos. Mas muitas novas podem ser criadas a partir da viabilização de volumes menores  totalmente customizados como num foto-album de maior formato  ou mesmo latas de refrigerantes de marcas famosas personalizadas ou ainda produções viáveis de malas diretas ou transpromos  com geo-marketing: aquele que muda a mensagem e sua relevância, seja no texto seja na propaganda colorida, de acordo com o perfil estatístico e geográfico do recebedor a partir de códigos QR (códigos bidimensionais que fotografados levam a páginas web ou bancos de dados específicos) previamente estabelecidos e em plena produção. Um verdadeiro campo fértil para a criatividade e para um marketing efetivo, com medição de resultados online.

Dessa maneira talvez o que prevaleça como tema seja mesmo o da Drupa Híbrida. A que juntou a offset com o digital, interligou os processos de produção e a que reuniu de maneira difusa diversos produtores de tecnologia em diferentes combinações. Mas não foi só isso. Foi a demonstração de que o toner líquido passa a ser uma alternativa interessante e intermediária de produção entre as máquinas digitais de folhas em toner seco ou electroink e as cada vez mais velozes inkjets. Os anunciados lançamentos da Xeikon e sua tecnologia Trilium e da Océ e sua tecnologia Infinitstream ( na verdade mostrada fora da Drupa), entre outros, configuram esse quadro. O que não apaga de nenhuma maneira toda a nova plataforma de operações da Indigo com sua máquinas 10.000, 20.000 e 30.000 que trarão e incentivarão uma maior migração do offset ao digital e, como disse acima, a criação de novas páginas – ainda que sejam latas  ou  rotulagens– ainda não existentes. As quase duas dezenas de máquinas digitais em inkjet de meia folha pulularam em todo o ambiente, muitas delas com o desenho e aparelhos de alimentação e saída típicos de offset.

Foi também a Drupa da verdadeira fábrica digital com a integração cada vez maior da impressão e acabamento, online e off-line, como muito bem demonstraram a Xerox e seus parceiros. E foi a Drupa da integração da offset com o digital no sentido de que não houve qualquer grande fabricante que não tenha apresentado sua parceria ou máquinas já operacionais como a KBA com um sistema inkjet da  RRDonnelley e uma linha de acabamento de livros, ou a Komori com a Kodak, ou a Kodak com a Ryobi, manroland com a OCÉ ou a Heidelberg com a Ricoh  mais um sistema de cabeçotes inkjet próprios. Deve ter até faltado alguém nessa minha lista. Nesse mundo das offsets uma atenção especial deve ser dada a automação dos equipamentos, dos vernizes e acabamentos em linha e dos novos processos de secagem que eliminam tempos de espera entre impressão e acabamento. Sem falar nas máquinas com o sistema de tinteiro anilox da Heidelberg que permitem acertos com poucas folhas e, com isso, podem competir com algumas das máquinas digitais em uma tiragem menor.

Um capítulo todo especial deve ser dedicado às embalagens, incluindo aí os rótulos de todos os tipos. A rainha da festa em termos de produto, com a participação cada vez maior no mix de produção gráfica, até porque sua substituição por meios eletrônicos é praticamente nula. Mas o que prendeu minha atenção, nessa área,  foram máquinas como a Euclid da Highcon, uma corte e vinco para folha inteira com corte a laser. A parte de vinco não é ainda uma maravilha, mas o corte é espetacular. Seu desenvolvimento deve ser acompanhado de perto. Na área digital o esforço de lançamentos que visam produzir embalagens e, em especial, rotulagem mostra que a competição entre fabricantes se tornará cada vez mais forte. Kodak, EFI, Epson, Xeikon e vários outros, sem falar nas Indigos que tem prevalência nesse mercado, mostram a força do crescimento do digital nessa área e a importância do segmento.

Ao tocar em embalagem retorno ao tema da Nanografia. Se cumprir o prometido será efetivamente uma revolução com produção digital em formatos até 70 x 100cm girando a 11.000 por hora com impressão frente e verso. E uma cobertura de tinta formada por micro pontos despejados por cabeçotes inkjet em base de agua. Pontos que se solidificam quando aplicados por blanqueta no suporte formando uma finíssima camada altamente reflexiva a luz. Por sua secagem permite a impressão em superfícies plásticas, cartonadas e papeis com ou sem revestimento. Uma maravilha. As máquinas estavam lá, rodando sem imprimir, incluindo rotativas com papel e plástico. Lindas máquinas, interativas, com imensas telas como um tablete gigante. Alias sua operação pode ser feita por tablets à distância. Espetacular. Só falta mesmo saber quando virá ao mercado comercial. Diz o Landa em 18 meses. A expectativa na média dos analistas é de 24 a 36 meses. Veremos.

Na verdade fiquei feliz de ver o anuncio de uma tecnologia de nanografia no setor gráfico, ainda que esteja em processo de desenvolvimento e evolução. Pois foi por aí que medi a feira olhando o seu todo. Primeiro pelo alto volume de investimento na evolução das tecnologias atuais e nas novas como a nanoink. É fantástico ver o que empresas de ponta como a HP, por exemplo, estão investindo na mídia impressa. Não tenho idéia ainda da soma total do investimento de toda a indústria, mas é algo considerável em um setor dito como decadente pelos profetas do amanhã onde seremos todos completamente digitais. Vamos por aí, mas a interação de mídias é inevitável, incluindo a impressa. Acabo de ver o novíssimo relatório da consultoria PwC sobre a projeção do crescimento da mídia até 2016. Com uma previsão de um mercado mundial de US$2,1 trilhões em cinco anos, crescimento de 31%, com as mídias não digitais crescendo somente 2,8%, ainda assim elas representarão 67% do total, incluindo aí a impressão, televisão, etc. O mais importante foi a constatação retratada no relatório que estamos no “fim do começo” da era digital transformando o mercado digital em mais um mercado, integrado aos existentes. O que não significa o fim da pressão sobre os impressos, mas sua resistência como meio para a maioria das pessoas. E aí faz todo o sentido o investimento da HP, Xerox, Canon, Ricoh, etc, etc.

Olho de novo o quadro da feira e todo o conjunto mostrado. Olho para um ensaio recente da renomada revista The Economist saído há poucas semanas. Era sobre o que eles chamam da terceira revolução industrial onde a manufatura se tornará digital baseada em especial na nanotecnologia, na biotecnologia e na, pasmem, impressão 3D, as impressoras de objetos, algo já totalmente acessível. Leio também, as pesquisas e os experimentos das novas embalagens inteligentes onde com a biotecnologia embarcada os invólucros dos alimentos carregarão micro organismos que elevarão o tempo de validade dos produtos embalados, entre outras coisas. Vendo isso imagino que essas embalagens também terão elementos gráficos e que possivelmente a nanografia venha a ser o processo mais adequado por não alterar e interagir com o suporte plástico ou cartão.

Dessas observações pude concluir que a nossa indústria caminha passo a passo com a evolução tecnológica mundial e que junto com ela sofre e sofrerá transformações rumo a produções mas flexíveis, customizadas às necessidades especificas dos clientes finais, sustentável por sua reciclagem e eliminação de desperdícios por produzir as quantidades exatas no momento e local certos, em qualquer ponto do planeta, usando as tecnologias mais atuais integradas nos novos processos digitalizados de produção. Que vai exigir também novos modelos de gestão, de integração permanente com os clientes e de medição imediata de aplicações técnicas e resultados.

Nesse sentido, pois, essa Drupa me representou essa transição. Uma transição tecnológica gradual para uma indústria inteira em transformação.

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Hamilton T. Costa

Website.: www.anconsulting.com.br

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