As Novas Revoluções Industriais, a Gráfica e a Drupa

As Novas Revoluções Industriais, a Gráfica e a Drupa

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Nosso artigo na revista Abigraf que vai circular na Drupa 2016.

 

artigo abigraf

revista Abigraf maio16

O fórum mundial de Davos, realizado nessa cidade Suíça no inicio de cada ano, e que reúne a nata econômica mundial, presidentes, primeiros ministros e autoridades monetárias, tem sempre um mote, um tema central. Neste de 2016, esse tema se ateve no significado da chamada quarta revolução industrial, ou revolução tecnológica, que implica, segundo os organizadores, nada menos do que a transformação da humanidade nas próximas décadas, tal o seu impacto em todas as atividades humanas.

A intenção dos organizadores foi o de chamar a atenção dos líderes mundiais para esse fenômeno e as consequentes influências, com o objetivo de força-los a olhar para o futuro e não somente tentar resolver problemas com as perspectivas do passado. Um desafio gigantesco com muitas perguntas, dúvidas existenciais e ainda poucas respostas. Mas, para isso mesmo servem esses fóruns. Abrir grandes temas que se materializarão nas próximas décadas.

Mas quais as bases dessa imensa transformação tecnológica que mal estamos começando a entender sua extensão? A começar pelas possibilidades quase infinitas resultantes das crescentes redes de conexão de bilhões de seres humanos por equipamentos portáteis como o celular e uma imensa capacidade de poder de processamento, estocagem de dados e acesso à informação e conhecimento. Além das possibilidades que resultarão da confluência de tecnologias disruptivas emergentes que vão da inteligência artificial, robótica, a internet das coisas (Iot), veículos autónomos, impressão 3D, nanotecnologia, ciências dos materiais, estocagem de energia ,computação quantum e todo o avanço na biociência. Muitas tecnologias ainda estão em fase inicial de desenvolvimento, mas começam a chegar a um ponto onde cada uma impulsiona o desenvolvimento da outra. Seja como for, essas mudanças são históricas em termos de tamanho, velocidade e escopo, como afirma Klaus Schawb em seu livro The Fourth Industrial Revolution, e que serviu de base para Davos neste ano. Klaus, na verdade, é o organizador de conteúdo do fórum e esse livro foi usado como referência. Vale integralmente a leitura.

Os impactos dessa revolução nos negócios são imensos com a alteração na formas de produção, organização e dos modelos de negócio, tanto quanto vimos nas revoluções industriais anteriores. A primeira entre 1760 e 1840 com a invenção das máquinas a vapor, a segunda entre o final do século 19 e o começo do século 20 com o advento da eletricidade e as linhas de produção possibilitando a produção em massa; a terceira, digital, com o advento dos computadores mainframe no anos 1960, computadores pessoais nos anos 1970 e 1980 e a internet a partir dos anos 1990 e suas consequências e desenvolvimentos que ainda estamos vivendo, aí se incluindo o advento das impressoras 3D, a biotecnologia e a notecnologia. Claro que essas divisões são acadêmicas e genéricas para facilidade de entendimento, mas as características da transformação se solidificam com o tempo.

A quarta revolução industrial se caracteriza pela chamada Industria 4.0, termo cunhado na Alemanha em 2011 e que começa a se caracterizar por fábricas inteligentes, onde não só o produto a ser fabricado interage e informa ao equipamento que vai produzi-lo o que fazer com ele, assim como a própria fábrica pode participar de uma cadeia global de valor criando um mundo no qual sistemas de manufatura virtual e físico cooperam um com o outro de forma flexível ( vide Klaus Schwab).

Oras, é evidente que a tecnologia gráfica não fica fora dessas evoluções e incorpora os avanços da ciência para suas finalidades. Nem precisamos dizer o que a computação gráfica fez com o setor.  Mas tomemos algumas dessas novas tecnologias e, em especial, a questão da indústria 4.0 e vamos ver de que forma isso vem afetando e deve afetar a produção e o negócio gráfica.

A biotecnologia começa a chegar ao setor através das embalagens, com filmes que permitem o prolongamento de produtos orgânicos, ou mesmo impressões em selos que modificam sua cor mostrando o tempo de validade do produto embalado. A nanotecnologia já está presente nas novas formas de impressão inkjet com jatos de tinta formulados para a melhor cobertura do suporte, seja papel, plástico ou metal, com brilho e alta qualidade de impressão. Além de melhorias na engenharia dos equipamentos.

A impressão 3D já é uma realidade, e como já tem o nome de impressão, sua incorporação no conjunto de oferta das gráficas será natural. Esta drupa já mostra inúmeras aplicações usando a impressão 3D assim como os fluxos de criação de materiais incorporando essa terceira dimensão ao 2D da impressão. Cria-se o conteúdo de comunicação e a “gráfica” o disponibiliza em digital, impresso e tridimensional completando todo um ciclo abrangente.

A impressão digital segue velozmente em um processo que a levará ao predomínio das tecnologias de reprodução. Em velocidade, formatos, aplicações, qualidade e, mais que tudo, em variabilidade, customização e interação. Com a progressiva integração dos fluxos digitais de produção, a automação dos equipamentos, a variabilidade imediata da produção e a interação do material impresso com o mundo digital dos diferentes códigos de leitura digital, as novas fábricas inteligentes de impressão que atendem aos pressupostos da terceira e quarta revolução industrial já estão em operação, em construção ou sendo elaboradas. Hoje já é possível ter toda uma linha de produção que interaja com os fluxos de criação de conteúdo do cliente e sua rede – agências, mídias, marketing – e a produção e disponibilização em diferentes mídias, com linguagens específicas para públicos alvo que podem ser individualizados. Uma mensagem feita para você, de acordo com seu perfil, de acordo ao seu gosto, ao seu desejo.

As plataformas digitais se transformarão nas plataformas inteligentes e operativas das gráficas. Que, por incrível que pareça, serão individuais, ainda que soluções comuns sejam vendidas. Plataforma significa a junção dos diferentes softwares que farão a ponte entre as necessidades do cliente – projetos de embalagens, material de marketing, documentos transacionais, papelarias, marketing direto ou de precisão, livros, revistas e todos os itens que significarem redução de tempo e de operação e eficiência para o cliente. Em uma ponte que os ligará diretamente à gráfica e ao seu fluxo e processo de produção para posterior disponibilização onde esse cliente queira ou necessite. A junção dos softwares  para a construção de sua plataforma e seus resultados serão de acordo com o perfil de clientes, o nicho de mercado e a proposição de valor da gráfica, por isso digo que serão individualizados. Ainda que os fornecedores de tecnologia cada mais oferecerão esses fluxos já construídos em sistemas operacionais definidos. Já podemos ver isso no mercado, mas ainda há muito que evoluir para uma operação efetivamente automatizada, ainda que customizada.

Uma vertente das aplicações da impressão digital vem gerando um crescimento explosivo da chamada impressão funcional, ou a impressão das coisas, como costumo chamar. Hoje, tudo se imprime, ou melhor, tudo pode ser impresso. Das roupas com tecidos criados e impressos de forma exclusiva  até a forração das paredes; da sua foto do instagram virando quadro ou capa de caderno ou capa de celular até a impressão da sua sandália. De um bar inteiro: paredes, piso, azulejos e móveis, a um carro ou avião. Da sua caneca ao livro infantil personalizado com a história e o desenho do seu filho que também virá um adesivo na parede do quarto dele ou mesmo um protótipo tridimensional daquele aviãozinho maluco que ele projetou. Das imensas comunicações urbanas a grandes eventos esportivos na impressão das quadras, das piscinas, tetos e janelas. Um mundo impresso.. Pensando bem, isso deve ser chocante para todos os digitólogos que previam o fim da impressão há pouco tempo atrás, não é mesmo?

Sem falar da impressão industrial, aquela que é aplicada na fabricação de todos os aparatos eletrônicos que usamos, circuitos, layers de celulares e notebooks, painéis de carros, etiquetas com sinal de rádio, cartões de crédito com chips, aparentes ou embutidos, cartazes com sinais para bluetooth ou celulares.... e por aí vai. Inúmeras, infinitas aplicações.

Em relação a novos materiais um destaque se dá ao grafeno, um nanomaterial que é 200 vezes mais forte que o aço e um milhão de vez mais fino que um fio de cabelo. e um condutor eficiente de calor e eletricidade e que pode ser transformado em películas ou mesmo em uma tinta tal qual as de offset e usado em impressão de tecido ou papéis podendo ser lavado sem perder suas características.  Ainda caríssimo, mas, quando disponível, pode tornar os wearables, roupas e acessórios com tecnologia eletrônica avançada,  uma efetiva realidade.

Esse é o futuro, mas também o presente. Mas, falando em presente, como o setor gráfico, mundialmente, vai vivendo nessa mescla entre as demandas tradicionais, que são, claro, ainda predominantes, e essas novas concepções?

Recentemente os organizadores da drupa divulgaram a última das seis pesquisas que, inteligentemente, encomendaram e vêm divulgando desde o ano passado, como atrativo para a feira. São pesquisas interessantes mostrando as tendências e as percepções de mercado, feitas com gráficas e fornecedores de todo o mundo. Seus resultados não deixam de mostrar uma realidade global, ainda que, estatisticamente, não se possa identificar as amostras de cada região como efetivamente correspondentes ao seu todo. 

Na linha deste artigo destaco alguns pontos dessa pesquisa.. Primeiro a previsão de investimento das empresas em tecnologias de impressão: 32% para impressoras digitais de folhas, 23% para offset de folhas, 13% para impressoras inkjet rotativas e 12% em flexografia. O que mostra bem a importância da impressão digital, mas também mostra que a offset continua como uma tecnologia muito importante – e na verdade ainda dominante – e que a junção desses dois processos se apresenta como  a melhor alternativa a muitas gráficas. Mostra também o crescimento da flexografia na área de embalagens.

Em termos de adição de serviços de maior valor agregado a pesquisa indica que para as gráficas comerciais os principais serviços oferecidos são: dados variáveis: 67%; design/criação: 60%; logística: 50%; grandes formatos: 40%; impressão interativa/códigos QR e outros: 39%; WebToPrint: 35%.  Isso mostra o crescimento da impressão personalizada, geração de conteúdo e web to print como forma de venda e integração com os clientes.  A oferta de serviços multicanais, para diferentes mídias além da impressão mostra que 39% das empresas declararam já oferecer, sendo que metade os desenvolvem internamente e metade os fazem com terceiros.

A pesquisa também levantou nas empresas que oferecem impressão funcional quais serviços predominam, sendo: 54% em materiais de decoração; 33% tecidos; 15% cerâmica; 11% eletrônicos; 11% impressões 3D e outros com 54% (cada respondente podia indicar mais de uma aplicação, daí o porquê de mais de 100%)

Pois bem. Creio que a drupa deste ano, sendo ela uma espécie de Meca dos empresários gráficos, captou na plenitude todo o estado atual de mudanças da tecnologias, dos negócios e o futuro do setor. A evolução tecnológica traz, como sempre, muitos desafios, mas também muitas oportunidades. E que estão representadas nas chamadas da feira: toque o futuro, toque ideias, inovação, artes gráficas, cor, produção de embalagens, impressão funcional, multicanal, impressão 3D. Gostei mais ainda do neologismo que criaram, na junção do físico com o digital: phygital ou fígital em português.

Creio que isso resume bem o que já temos hoje e seu desenrolar nos próximos anos: a junção do físico com o digital e a incorporação de novos conceitos que mudarão radicalmente o nosso negócio, como a quarta revolução industrial.

Falando nisso, qual a velocidade de mudança do seu negócio? 

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Hamilton T. Costa

Website.: www.anconsulting.com.br

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