A recente pesquisa mundial da Drupa sobre as tendências da indústria gráfica: uma primeira análise

A recente pesquisa mundial da Drupa sobre as tendências da indústria gráfica: uma primeira análise

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Algumas considerações sobre a pesquisa mundial recem lençada pela Drupa (baixe a pesquisa no final do texto)

A Drupa liberou na última semana um excelente relatório contendo uma pesquisa de caráter mundial sobre as tendências do setor gráfico. Com entrevistas feitas durante a feira de 2012  e que foi complementado com pesquisa realizada no último trimestre de 2013 com 1419 executivos de gráficas, 498 fornecedores e 508 compradores de produtos gráficos. Um grande painel mundial pois o levantamento se fez com decisores de todos os continentes, embora se sinta um sabor mais europeu no texto, pois, afinal, o trabalho foi feito por uma consultoria  Inglesa e uma Suíça. Faltou, nos detalhes, saber se os respondentes estão estatisticamente adequados ao PIB gráfico mundial, assim como por país, pois as consolidações são por região: Africa, Australia/Oceania, Europa, Oriente Médio, América do Norte, América do Sul e Ásia. Isso, no entanto, não tira o brilho do trabalho e a visão geral que proporciona. De resto só a lamentar o erro gráfico na cor das Américas e os textos correspondentes em alguns dos mapas apresentados onde se percebe uma inversão entre a América do Norte e a do Sul.

 Esse é o primeiro de uma sequencia de relatórios que - inteligentemente - serão liberados pelos organizadores da grande feira alemã até sua próxima edição em 2016.  O resumo executivo do relatório, com 9 páginas, está sendo distribuído gratuitamente (veja abaixo). O relatório completo de 35 páginas (e vendido no site da Drupa: www.drupa.de/2131) é dividido em 5 partes: as questões Econômicas; as questões Financeiras;  as questões Operacionais; Vendas, Marketing e o Crescimento dos Negócios e, por fim, Investimentos Futuros.

Conclusões:

As principais considerações da pesquisa não deixam de ser interessantes:

1) um certo vigor na retomada de investimentos, em especial nos EUA e Europa e menor disposição nos países emergentes que lideraram o ranking de investimentos nos últimos

2) Uma forte e crescente importância de impressão digital como consequência da mudança da demanda: maior número de trabalho com menores tiragens e prazos mais curtos

3) Ainda uma boa procura por equipamentos offset, em especial nos segmentos mais estáveis como embalagens

4) Investimentos em produtividade e, muito importante, em serviços de maior valor agregado ampliando a oferta aos clientes além de produtos impressos. Essa, possivelmente, o maior fator de diferenciação para as empresas gráficas nos próximos anos.

5) Falta de foco comercial e de marketing. Aprender a ver e entender necessidades e formas de abordar os clientes e mais atenção a estruturação da parte comercial das empresas.

A pesquisa:

Nas considerações econômicas ressalta-se a lenta, porém consistente, recuperação das economias europeia e norte-americana e o menor crescimento dos países emergentes em relação a anos anteriores ainda que mantenham, na média, melhores taxas do que as economias mais desenvolvidas. Tal quadro é importante para a intenção de investimento para este ano, algo mais positivo e que deve estar deixando os fornecedores de equipamentos mais animados.

Na parte financeira eles analisaram por um lado a questão de concessão de créditos com dificuldades ainda fortes pelo lado europeu e melhores facilidades de acesso para as Américas e Ásia, mas ressaltam as dificuldades de fluxo de caixa de muitas empresas embora 26% declararam que os pagamentos melhoraram embora os fornecedores tenham afirmado que os recebimentos pioraram em até 32%.

Impressores de todas as partes do mundo estão sentindo mudanças radicais na combinação da impressão tradicional e digital relacionadas as questões econômicas e de mudanças de padrões de consumo por parte dos clientes. 45% deles declararam que sua tiragens e prazos de entrega diminuíram. 

O mais interessante é que poucos dos impressores de todas as regiões declararam forte queda de volume, mas o que aparece no levantamento é um certo padrão em que volumes diminuem, preços caem e as consolidações de negócios gráficos por fusões crescem. Aos outros impressores, não consolidados,  cabe trabalhar ainda mais duro e manter custos adequados ao faturamento. A consolidação de negócios não é ainda um fenômeno acentuado no Brasil, como sabemos, mas pode vir a ser brevemente.

No estudo é importante observar a importância crescente da impressão digital. 65% do total dos  entrevistados já possuem impressão digital sendo 5% deles somente digitais. Dividindo esses impressores por especialização, temos: 85% dos impressores comerciais do mundo já tem impressoras digitais e para 31% deles esse processo representa pelo menos 25% do seu faturamento. Por outro lado, 38% dos impressores editoriais e 57% dos impressores de embalagem declararam ainda não ter impressão digital refletindo modelos de negocio mais tradicionais ainda atados a maiores tiragens.

Ainda relacionado a impressão digital é importante verificar que 57% das empresas declararam que o que imprimem nesse processo é 10% ou menos oriundas da impressão tradicional. Ou seja, são serviços já diretamente criados e direcionados ao digital, é o que se pode depreender e menos do que retiraram de trabalhos de offset.

Quadro 1

Para 47% dos entrevistados os seus faturamentos cresceram em 2013 contra 33% que disseram ter declinado. Em compensação para 43% as margens diminuíram. Aumento no custo das matéria primas, especialmente papéis e cartões, e o aumento da concorrência foram as principais razões alegadas.

Em relação a investimentos a pesquisa aponta para três direções principais: melhoria de eficiência, capacidade adicional (em especial para a área de embalagens) e novos serviços de valor agregado. Para isso 55% das empresa planejam investir em tecnologias de impressão, 50% em equipamentos de acabamento e 41% em tecnologias de pre-impressão/workflows/sistemas operacionais, incluindo aí também uma boa porcentagem de empresas (21%) que indicam investimento em sistemas de Web-To-Print.  Em termos de investimento em impressão a pesquisa mostras as preferencias por especialidade declarada da gráfica: a primeira escolha de 38% dos impressores comerciais e 32% das gráficas editoriais é o investimento em impressoras digitais coloridas em folhas; 34% dos impressores de embalagens optam por investir em flexografia. Para o total de gráficas entrevistadas 29% pensam em investir em offset de folhas. O que não deixa de ser um número interessante, nada desprezível – por ser global – para os fabricantes de offset.

Quadro 2

Para melhor definição dos entrevistados e entendimento da pesquisa, pediu-se que definissem os principais mercados que atendem resultando em 36,5% no mercado de embalagens, 27,6% no mercado editorial, 51,7% no mercado comercial e 5,7% no mercado industrial/produtos decorativos, uma generalidade que indica nichos em crescimento.

Fatores chave de mudanças:

A leitura de todo o reporte indica uma clara mudança no mix de trabalhos com reduções de tiragens: para 45% mundialmente e para 25% na América do Sul; diminuição dos prazos de entregas: para 45,2% mundialmente e para 51% na América do Sul e aumento na quantidade de trabalhos: para 52% mundialmente e 36% na América do Sul. Mudanças que mostram claramente porque a necessidade de se investir em produtividade e em processos que permitam mais agilidade e respostas rápidas.

A parte mais enfática da pesquisa, no entanto, repousa sobre a questão de crescimento do negócio. Alavancar o crescimento em um mercado declinante, de forte competição e de rápidas mudanças em empresas focadas em produção – e não vendas e marketing – tornam o processo de mudanças e adequação do negócio ainda mais desafiador.

Perguntados sobre os fatores de restrição ao crescimento, as respostas foram: falta de vendas para 40% do total dos respondentes (37% para os da América do Sul); falta de suporte financeiro para 15% do total (14,6% para os da América do Sul); falta de investimentos para 16% do total (14% para os da América do Sul); forte competição para 57% do total (62% para os da América do Sul); falta de oferta de novos serviços para 14% do total (12% para os da América do Sul) e falta de habilidades/ recrutamentos adequados para 21% do total (14% do total).

Ao explorar a questão das restrições encontradas em vendas a pesquisa indica que encontrar novos clientes é o principal desafio das empresas. Vejamos: falta de demanda para impressão convencional: principal causa para 29% do total de empresas; falta de demanda para impressão digital: principal causa para 8% do total; encontrar novos clientes: principal causa para 61% das vendas; encontrar bons vendedores: principal causa para 38% das vendas e, por fim, falta de serviços de maior valor agregado: principal causa para 22% das empresas.

Esses números são muito interessantes e importante para uma análise setorial. Indicam, primeiro, o que reportamos antes, ou seja, há uma carência sentida de bons vendedores e de um foco comercial mais consistente com as novas demandas e necessidades dos clientes, assim como a dificuldade em se recrutar pessoas com habilidades e competências necessárias para novos serviços. Da mesma forma a necessidade e a dificuldade de se buscar esses novos serviços que agreguem valor, em especial nos mercados emergentes, como fator de diferenciação.

Esse último ponto, por sinal, é o que particularmente mais temos no debruçado em artigos, workshops e consultorias. A passagem de uma empresa exclusivamente fornecedora de serviços gráficos para a de fornecedora de serviços ou soluções onde a revisão do negócio estratégico e a construção de uma nova oferta possa atender as atuais necessidades de um mercado em transformação.

Enfim, ainda há muito o que comentar e analisar a partir das indicações dessa pesquisa. Adicionalmente também tivemos a conclusão dos trabalhos do WWMP - O mercado gráfico mundial com previsões até 2017 para mais de 55 países. Um trabalho encomendado pela NPES dos EUA, que também estaremos analisando em próximos artigos e fazendo um paralelo com essa pesquisa da Drupa

Enfim, um prato cheio para o planejamento estratégico dos envolvidos nesse negócio.

Baixe aqui o sumário executivo da pesquisa Drupa em português e em inglês. Aos que puderem leiam em inglês pois em Português deixa um pouco a desejar;

Em Português:

  www.messe-duesseldorf.de/drupa2012_ca/pdf/exe_summary_pt.pdf

Em Inglês:

www.messe-duesseldorf.de/drupa2012_ca/pdf/exe_summary_en.pdf

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Hamilton T. Costa

Website: www.anconsulting.com.br

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